Primeiro mês. Tá tudo errado. Tão errado que nem as flores recém nascidas nos jardins supensos me alegram. Uma tristeza grande me encharca, o sol se apagou e chove dentro de mim. Sensação de ser sozinha. Sensação de ser estúpida. As lágrimas nem se escondem. As estrelas se apagaram e tudo dói. Viver é um fardo hoje.
Sim, estou dramática, talvez seja contagioso.
Sinto tudo, sinto muito, estou viva afinal. Tenho coração. Ele é inquieto. Ele é medroso, tão medroso que chega a ser amarelo.
E vai amarelando mais com o tempo.
De que ele tem medo? De que tudo seja verdade, que a vida não tenha volta, que sentir e amar seja algo bom, tão bom, que ele possa perder e sofrer e então, como é covarde -além de medroso - resolve abrir mão para não sofrer mais tarde. Prefere antecipar sofrimento.
E se esconder de novo. Se fechar como uma ostra.
2013. Já?
Mas como passou tão rápido?
Ando calada, mais pensativa que o normal.
As palavras estão aqui e tentam me forçar o parto, mas eu resisto. Talvez não queira que saiam, talvez não queira que brotem. Talvez. Talvez.
Ficam ressoando em minha cabeça e me sinto sendo a protagonista de um livro sendo escrito. E não é assim mesmo a vida?- alguns poderão perguntar. Um livro escrito enquanto tudo acontece, sem chance de voltar atrás? Ou é apenas influência do filme Mais estranho que a ficção?
" Sei lá. sei lá, a vida é uma grande ilusão.Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão."
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(o cursor pisca me apressando...)
Talvez eu não queira admitir o que deve ser dito. Talvez eu não queira o final que está sendo escrito. De nenhuma forma.
Clarice Lispector já recusou o final em Água Viva:
"Vamos não morrer como desafio? Não vou morrer, ouviu Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. Vou ficar muito alegre, ouviu? Como resposta, como insulto. Uma coisa eu garanto: nós não somos culpados. E preciso entender enquanto estou viva, ouviu? porque depois será tarde demais."
Não mate nada, ouviu? Não acabe com nada, ouviu? Ou vou ficar alegre e insultar, como forma de resistência... enquanto o cursor pisca, ansioso por novas palavras, no meu intervalo de digitação eu penso. Nada é justo, e talvez essa seja mesmo a justiça. O final escrito para Harold Crick era poético, transformaria sua vida em uma obra prima, não seria esquecido, teria sua existência justificada. Mas ele aceitou? Não. Argumentou, reivindicou. Conseguiu. Mais algum tempo, uma existência talvez medíocre, certamente medíocre, mas estaria vivo! E isso era tudo que lhe importava.
Os finais são tão difíceis! Como colocar um ponto final em uma história? Um ponto final final. Não um final de frase, parágrafo ou capítulo, o final de um livro, de um conto, de uma história. Fica o gostinho de "e depois, o que aconteceu com eles?" Resta ao leitor a imaginação. E, como estamos infectados por contos de fadas com finais felizes, a tendência é imaginar que tudo deu certo, os caminhos escolhidos levaram à vidas felizes e tudo continuou. É assim mesmo? Posso acreditar nisso? Quem pode me responder?
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(o cursor indica que devo continuar a escrever)
"Tudo acaba, mas o que te escrevo continua. O que é bom,
muito bom. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.
Hoje é sábado e é feito do mais puro ar, apenas ar.
Falo-te como exercício profundo, e pinto como exercício
profundo de mim. O que quero agora escrever? Quero alguma coisa tranqüila e sem
modas. Alguma coisa como a lembrança de um monumento alto que parece mais alto
porque é lembrança. Mas quero de passagem ter realmente tocado no monumento.
Vou parar porque é sábado.
Continua sábado.
Aquilo que ainda vai ser depois - é agora. Agora é o domínio
de agora. E enquanto dura a improvisação eu nasço.
E eis que depois de uma tarde de "quem sou eu" e
de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero - eis que às três horas
da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre,
plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai
durar.
O que te escrevo é um "isto". Não vai parar :
continua.
Olha pra mim e me ama. Não: tu olhas pra ti e te amas. É o
que está certo.
O que te escrevo continua e estou enfeitiçada" - Clarice Lispector, final de Água Viva
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(o cursor/pulso ainda pulsa...)
Exausta e Exasperada.
Duas palavras com EX descrevem meu momento-já. Tão legal isso. Palavras com EX podem ser tão difíceis, tão desencaixadas... e consegui duas assim, de sopetão, pra dizer do momento que vivo.
Nota mental: qualquer vinho fica amargo após uma taça de sorvete.
I Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem Que faço a sós comigo. Isenta de traçado Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem Hei de levar apenas a vertigem e a fé: Para teu corpo de luz, dois fardos breves. Deixarei palavras e cantigas. E movediças Embaçadas vias de Ilusão. Não cantei cotidianos. Só cantei a ti Pássaro-Poesia E a paisagem-limite: o fosso, o extremo A convulsão do Homem.
Hoje eu atingi o reino das
imagens, o reino da despalavra. Daqui vem que todas as
coisas podem ter qualidades humanas. Daqui vem que todas as
coisas podem ter qualidades de pássaros. Daqui vem que
todas as pedras podem ter qualidade de sapo. Daqui vem que
todos os poetas podem ter qualidades de árvore. Daqui vem que
os poetas podem arborizar os pássaros. Daqui vem que todos os
poetas podem humanizar as águas. Daqui vem que os poetas
devem aumentar o mundo com suas metáforas. Que os poetas
podem pré -coisas, pré-vermes, podem pré-musgos. Daqui vem que
os poetas podem comprender o mundo sem conceitos. Que
os poetas podem refazer o mundo por imagens, por eflúvios, por afeto.
Ela diz: criei um universo aqui. Eu gosto. Pode ser que diga isso para todos, afinal assim são os artistas. Não quero acreditar. Acredito que criou muitos, mas não sei se disse todos. Fiquei feliz por ter dito. As palavras reverberam no universo e, com isso, realizam-se.
O sofá andou. Veio compor o universo. Ah, essas bagunças dela! São adoráveis uma vez por mês. E todos os planos? Todas as ideias. Ela é uma doida mesmo. Quando eu te digo isso, estou falando que a tua doidera é real, como a tua lucidez. São muitas coisas numa pessoa só. Isso pra mim é que é a loucura. As coincidências também são doidas, tu sabes bem. Te ligo. Era essa música que eu escutava:
Viu bobona? Palavras nas pontas dos dedos, espalhadas em gestos.
Romântico? Será o que sou por escutar McCartney e lembrar dela? Pagando mico, dando um "bandeiraço"? E como posso deixar de sentir e de dizer? Mas sei que ela não vai ler. Agora está ocupada, depois não vai lembrar desse espaço. Estou protegido. Anônimo na internet.
Ela, ah ela. Ela tem charme e usa. Sabe chegar com aquele jeitinho. Aqui, agora, um incenso e o presente que tu me deu. Descanso. Preciso aprender a ir dormir mais cedo. Tanta coisa ficou por fazer só para poder te ver um pouquinho. Acordar cedo. Recomeçar a semana e essa vai ser longa e trabalhosa. No final dará tudo certo, estarei um pouco cansado, posso querer me cansar de outro jeito. Cansar no braço dela, que abusa de mim. Aprendo com ela. Me ensinou, por exemplo, a diferenciar Lennon de McCartney, em timbre e em criação. Me deu uma pequena lição de Corel. Prometeu seguir me ensinando. A vida fica lenta perto dela. O tempo para. Me convida para almoçar, me alimenta, cuida de mim um pouquinho. Tem coisas que dá vontade de matar. Pequenas coisas que quase não importam perto do universo, da maçã (já falei da maçã? não? outro dia então...), do abraço, dos beijos. ... Pra você guardei um universo Quando falta espaço eu faço um verso e durmo na canção... (Nei Lisboa - Romance)