sábado, 20 de outubro de 2012

Bipolaridade


Viver é isso:
estar a todo o instante
na iminência de fatos dolorosos
um amigo que morre
(sozinho, ô morte triste)
algo que se apaga em nós
um olhar que não vai ser mais visto
uma risada que cala
um gesto que não se repete.


Viver é isso:
estar a todo instante
na iminência de um milagre
uma criança que nasce
(sozinha, que coisa mais linda)
algo que reacende em nós
um olhar novo sobre o mundo
uma risada nunca ouvida
um gesto que se aprende.



Retórica


"A criação é um pássaro sem plano de voo...
que nunca vai voar em linha reta."
(Violeta Parra)

Uso todas minhas melhores palavras
gasto todo o meu "latim"
pra te convencer de algo
que não assumo nem pra mim

E quando apontas um sim
todo o meu argumento
se perde por um momento
ou dois
recolho as minhas palavras
deixando o amor pra depois.

Não me aguento!
me contorço em náusea e cólica
confirmo o que intuia:
sou retórica...

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ninguém me perguntou, mas tô meio assim, sem sapatos,

esparramada em mim e agrupando pássaros. se nasci sem 

asas, só eles podem me ajudar a voar...


Do Incômodo


Me incomoda
que as palavras que usas comigo
uses também com outras pessoas

Quero palavras novas
novíssimas
com cheiro de recém nascidas

Quero palavras novas
só minhas 
só tuas
só nossas
Nem que para isso seja preciso
inventar uma nova língua
só de nós.


Quero palavras novas
ou as mesmas em novos arranjos e formas
de trás para frente ou embaralhadas
novas configurações

ou palavras em desuso
ressuscitadas por nós
redescobertas em nós
pela necessidade de comunicar
algo único.
(todos os amantes se acham únicos
todos os encontros são únicos
eu quero palavras únicas)

Palavras minhas
palavras tuas

Me dá?

Porque me incomoda o banal
eu quero tua escrita
e, se virar canção melhor
mas, ainda assim,
vou querer uma canção
só minha
só tua
só nossa

Caso contrário,
no meu egoísmo amoroso
(sim, isso existe),
não te lerei mais
não terei mais palavras nas pontas dos dedos
não mais tatearei teu corpo tentando decifrá-lo

Me desesperarei
e amontoarei tuas palavras
na caixa das coisas comuns
e jogarei ao mar
ou atearei fogo

e não lerei.

farei birra
ficarei emburrada
sofrerei de despalavraria

Porque preciso saber
que as tuas palavras
recém nascidas
tem o meu endereço e meu cep
e que me procuram.

E te ofereço
pra iniciar já um novo vocabulário
a palavra carinhofé
que não explicarei,
pois sabes bem de sua origem.

De quem segue diando
Ana, a estranha.


...não me falta casa
só me falta ela ser um lar
não me falta o tempo que passa
só não dá mais para tanto esperar
para os pássaros voltarem a cantar
e a nuvem desenhar um coração fechado
para o chão voltar a se deitar
e a chuva batucar no telhado...
Arnaldo Antunes - A casa é sua